Sena Madureira

Artesanato acreano transforma sementes e madeira reaproveitada em produtos da floresta com valor internacional 

Nas mãos da artesã Rodney Paiva Ramos, elementos da floresta, como sementes, ouriços de castanha-do-brasil e pedaços de madeira reaproveitada ganham nova vida, transformando-se em biojoias e peças de decoração que saem do Acre para vitrines do Brasil afora e da Europa. A trajetória da empreendedora revela como pequenos negócios baseados na sociobiodiversidade estão fortalecendo a bioeconomia amazônica, gerando renda e criando oportunidades de mercado sem derrubar a floresta.

Na capital acreana, Rodney transforma sementes e madeira reaproveitada em acessórios e objetos de decoração. Foto: Cleiton Lopes/Secom



Há 22 anos, quando chegou a Rio Branco com a família, vinda de Manaus (AM), Rodney encontrou em um curso de biojoias amazônicas uma alternativa para complementar a renda familiar. Desde então, transformou sementes, ouriços de castanha e madeira reaproveitada em um negócio com identidade própria, que hoje reúne tradição artesanal, inovação e reconhecimento no Brasil e no exterior.

O que nasceu da necessidade se transformou em negócio com identidade amazônica e potencial de expansão. “Ver uma semente, um ouriço ou até um pedaço de madeira e conseguir transformar isso em uma peça é algo muito especial. É a transformação do artesanato, da biojoia”, descreve.

Diagnóstico da Agenda Acre 10 anos, elaborado em 2023. Imagem: Seplan

A história da artesã também reflete a força dos pequenos negócios na economia acreana. Segundo o diagnóstico da Agenda Acre 10 anos – plano de desenvolvimento socioeconômico sustentável do governo do Estado do Acre – empreendimentos como esse são responsáveis por 94,3% do total de empresas ativas e 61,7% do emprego formal.  

Governo do Acre promove ações que fortalecem a atuação dos artesãos dentro e fora do estado.

Os resultados econômicos refletem o fortalecimento do setor. Em 2025, o artesanato acreano movimentou mais de R$ 1,2 milhão em vendas. O crescimento também foi acompanhado pela ampliação em 154,6% do número de artesãos formalmente cadastrados no estado, conforme dados do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab). 

Sementes, madeira e criatividade: a cadeia que gera renda no Acre 

Além da geração de renda, a produção artesanal baseada em matérias-primas da floresta também é vista como uma estratégia de conservação. Para o engenheiro florestal e diretor de Desenvolvimento Regional da Secretaria de Planejamento do Acre (Seplan), Marky Brito, esse tipo de iniciativa mostra que é possível gerar oportunidades econômicas sem a necessidade de desmatamento.

Segundo o gestor, a legislação ambiental, que exige a manutenção de 80% de reserva legal nas propriedades rurais da Amazônia, também contribui para esse modelo. É nessas áreas preservadas que muitas famílias realizam a coleta de sementes e outros materiais usados no artesanato.

Diretor da Seplan, Marky Brito coordena programas que mostram as vantagens econômicas do uso múltiplo da floresta. Foto: cedida


“Você tem ali uma área preservada de floresta que não pode ser desmatada. Nesses 80% é onde está toda a riqueza que a gente pode e deve aproveitar economicamente, dentro da sociobiodiversidade”, destaca.

Para que negócios como o de Rodney avancem da produção de sobrevivência para cadeias mais estruturadas, o Sebrae atua no Acre com ações de capacitação, organização de grupos produtivos, acesso a mercados nacionais e estrangeiros.

De acordo com o coordenador do Projeto de Internacionalização da instituição, Aldemar Maciel, “o Sebrae investe no artesanato, porque enxerga nessa atividade uma forma de reunir pessoas em torno de uma produção sustentável, de baixo impacto ambiental e com forte valor cultural”.

Aldemar Maciel coordena o Projeto de Internacionalização do Sebrae/AC. Foto: Alice Leão/Secom



Na prática, uma cadeia produtiva sustentável envolve várias etapas e diferentes trabalhadores. Rodney conta que parte das sementes vem de comunidades distantes, o que faz da logística de transporte um dos principais desafios: “Tem uma senhora que mora num lugar que não tem nem energia. Ela leva até três dias em transporte de barco e táxi para conseguir trazer essas sementes para cá”.

Depois da coleta, as sementes passam pelo beneficiamento. O artesão Francisco Raimundo Brandão é um dos responsáveis por essa etapa, que exige tempo, técnica e cuidado.

“Coloco no sol para secar, tiro pelo, serro, furo. A jarina, por exemplo, passa seis meses no sol para secar. Só depois é que a gente consegue fazer os formatos”, relata Francisco.

Jarina, considerada o “marfim vegetal da Amazônia”, leva até 6 meses para estar no ponto de ser transformada em biojoia. Foto: Cleiton Lopes/Secom



No ateliê, o trabalho também envolve inovação. As máquinas usadas na produção foram feitas ou adaptadas por Valdeci Neves, marido de Rodney, que era mecânico e hoje é responsável pela confecção das peças de madeira utilizadas nos produtos.

Durante a pandemia, diante da dificuldade de comercializar acessórios, Rodney passou a produzir colares decorativos de mesa e de parede, ampliando o portfólio e a renda. A peça, que pode ter até três metros de comprimento, chega a custar R$ 2 mil. O novo produto incrementou em 30% o faturamento da empreendedora. 

Loja do Masp, no coração da capital paulista, comercializa pulseiras e colares da Cores da Mata desde 2017. Foto: Israel Gollino/Masp



As peças da Cores da Mata, marca de Rodney, circulam em feiras de artesanato e também chegaram a estabelecimentos de referência, como a loja do Museu de Arte de São Paulo (Masp), em plena Avenida Paulista, símbolo máximo paulistano. Para a curadora de exposições de artesanato, de design e da loja do museu, Adélia Borges, a origem ambiental, econômica e socialmente justa dos produtos agrega valor e diferencia o artesanato amazônico no mercado.

“Essa é uma característica que chama bastante a atenção do público, que gosta muito de saber que isso é feito por uma empreendedora mulher, do Acre, da Amazônia brasileira, que com esse trabalho está contribuindo para manter a floresta em pé”, relata a curadora. 

Artesanato acreano chega ao mercado internacional e propõe uma nova forma de consumo 

Mas o reconhecimento do trabalho de Rodney não ficou restrito ao mercado brasileiro. À medida que a produção ganhou identidade própria e passou a circular em feiras e exposições nacionais, também surgiram oportunidades de inserção no mercado exterior.

O processo de internacionalização ganhou força em 2024, com a participação em iniciativas como a feira Expoartesanías, na Colômbia e a  Jornada Exportadora do Artesanato – Lisboa 2025, além de rodadas de negócios e do programa Exporta Mais Amazônia, promovidos pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos  (ApexBrasil) e pelo Sebrae. A partir dessas experiências, a artesã passou a comercializar peças por meio de parceiros que levam o artesanato acreano a outros países, como o Reino Unido.

Fundadora da loja Treasures of Brazil, sediada em Londres, Daiane Ferry esteve em Rio Branco em 2025 para visita técnica da Exporta Mais Amazônia/ApexBrasil. Foto: acervo pessoal



Em Londres, as peças são vendidas por meio da Treasures of Brazil (Tesouros do Brasil), loja fundada por Daiane Ferry e dedicada a joias ecológicas produzidas de forma sustentável. Segundo a empresária, as peças acreanas tiveram boa aceitação e já geraram novas encomendas para reposição e ampliação de coleções.

“Os produtos que vieram foram sucesso em Londres. Temos uma colaboração exclusiva com a Cores da Mata, e isso ajuda a gente a fazer pedidos novamente e a manter um padrão de design”, afirma Daiane.

Produção do Colar Meandros: item concorre ao Sebrae Top 100 de Artesanato. Foto: Cleiton Lopes/Secom


Ainda no currículo internacional, a artesã recebeu a certificação da 3ª edição do Reconhecimento de Excelência da Unesco para Produtos Artesanais do Mercosul+, com o Colar Cores da Mata, e teve sua trajetória e produtos incluídos no catálogo internacional Homo Faber.

Nos últimos dois anos, Rodney passou a participar de eventos internacionais. Em 2024, com apoio do governo do Estado, esteve na feira de artesanato Expoartesanías, em Bogotá, na Colômbia. No ano seguinte, foi uma das representantes do Acre na Jornada Exportadora do Artesanato – Lisboa 2025. Neste ano, concorre novamente ao Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato e é finalista na seleção para participar da Jornada Exportadora Paris – 2026.

Colar Decorativo Catraia é parte da nova coleção Rios Amazônicos e concorre ao Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato. Foto: Cleiton Lopes/Secom



Das margens dos rios acreanos às vitrines da Europa, o artesanato mostra que sementes, ouriços e madeira reaproveitada podem percorrer milhares de quilômetros carregando não apenas a identidade amazônica, mas também uma nova forma de enxergar o valor da floresta como fonte de trabalho, cultura e oportunidades econômicas.

Autor

Paiva Fernando
Editor chefe de vários jornais online O jornalista mais lido na Blasting News Mais de 150 milhões de leitores